quinta-feira, 19 de março de 2009

Filosofia da sustentabilidade

Foto: Aline (eu mesmo)


Para falar de sustentabilidade, é curioso e interessante buscar a origem do conceito e a etimologia das palavras que lhe dão suporte. Só então poderemos chegar a uma definição prática mais adequada de sustentabilidade, que não seja superficial ou hipócrita. É importante dizer que somos os responsáveis de qualquer maneira e que a mudança de hábitos é o que há de mais essencial nesta concepção e a mais difícil de praticar.

A origem do conceito pode ser encontrada na internet. Buscando, encontrei o seguinte texto: “O conceito foi introduzido no início da década de 1980 por Lester Brown, fundador do Wordwatch Institute, que definiu comunidade sustentável como a que é capaz de satisfazer às próprias necessidades sem reduzir as oportunidades das gerações futuras.” (CAPRA in TRIGUEIRO, 2005, 19). É a propriedade de um processo que, além de continuar a existir no tempo, revela-se capaz de: (a) manter padrão positivo de qualidade, (b) apresentar, no menor espaço de tempo possível, autonomia de manutenção (contar com suas próprias forças), © pertencer simbioticamente a uma rede de coadjuvantes também sustentáveis e (d) promover a dissipação de estratégias e resultados, em detrimento de qualquer tipo de concentração e/ou centralidade, tendo em vista a harmonia das relações sociedade-natureza.” (fonte: http://www.sustentabilidade.org.br/)

Sem usar a palavra “sustentabilidade”, Fritjof Capra já descreve este conceito em seu livro O Ponto de Mutação, editado também em 80. Nesta obra, Capra apresenta a concepção ou visão sistêmica do mundo. Ele apresenta uma perspectiva ecológica contraposta ao sistema fragmentário que dá suporte ao mundo moderno do fim do século XX e início do XXI.

Capra ressalta a obsessão da sociedade capitalista pelo crescimento, investindo em tecnologia pesada, estimulando o consumo perdulário e a exploração rápida dos recursos naturais. Estes seriam alguns dos fatores responsáveis por provocar os desastres e catástrofes naturais de repercussão no mundo social, além dos problemas sistêmicos nos âmbitos econômico, político etc.

A idéia de crescimento contínuo e progressivo reflete um pensamento cartesiano (René Descartes), em que há uma única direção a se seguir e a partir da qual para cada causa existe um efeito, reduzindo a ‘teia complexa de interdependências’ que constitui o ecossistema – em que o homem está inserido – a um único fio condutor, linear e simples.

O conceito de sustentabilidade está diretamente ligado ao da ‘teia complexa de interdependências’, porque representa a capacidade de transformação (inerente à natureza) aplicada à cultura humana. Ser sustentável significa reconhecer que a realidade é um processo contínuo e sistêmico (não-linear), no qual as relações (sociais, naturais e sócio-ambientais) ocorrem tanto simultaneamente quanto subseqüentemente e que cada parte tem, inevitavelmente, responsabilidade nesse processo. Este é o padrão existente na natureza: a ecologia (não no sentido do estudo do habitat e de seus ‘moradores’, mas como a lógica de interdependência entre os seres e recursos que convivem em determinado ambiente).

Na cultura humana, para ser sustentável é necessário que se respeite esta mesma regra: a transformação. Só quando existe uma proposta sistêmica dinâmica, e pessoas dispostas às mudanças, é que é possível manter a vida de maneira saudável ao longo de muitos anos e gerações.

O termo manter é uma das definições possíveis à palavra ‘sustentar’, que dá suporte ao conceito de sustentabilidade. Mas é importante utilizá-lo de forma adequada, já que para manter, neste caso, ou sustentar, é preciso transformar. Não há formas de mantermos a estrutura, o comportamento e o pensamento que se tem hoje e garantir a sustentabilidade. Um ecossistema só é sustentável porque os seres e recursos que o compõem trocam energia e matéria em ciclos contínuos, transformam-se frequentemente, não permitindo que haja desequilíbrio duradouro o bastante para causar seu colapso.

As demais definições de sustentar, como suportar, amparar, nutrir, fortificar, não deixam de ter o mesmo significado que manter, desde que compreendido o seu uso devido. Caso contrário, sustentabilidade seria sinônimo da habilidade de manter a sociedade que aí está (como está), em processo lento ou rápido e contínuo de degradação da vida.

Quando Capra sugere uma visão sistêmica e não-linear da realidade, fundamenta-se na teoria quântica, que vai nos levar à teoria do caos. Em seu livro Caos, a criação de uma nova ciência, James Gleick apresenta, em um dos capítulos, os fatos que deram origem ao termo ‘Efeito Borboleta’ – tão reproduzido, e até representado em roteiro de cinema.

A teoria do caos vem ao encontro da concepção sistêmica de que fala Capra e sua descrição reforça a existência de uma ‘teia complexa de interdependências’, na qual pequenas mudanças geram uma cadeia de acontecimentos que podem provocar mudanças maiores e significativas.

Isso mostra o quão inter-relacionados estamos com todos os seres e os recursos naturais essenciais à vida e como cada um de nós tem responsabilidade no processo como um todo.

O ‘efeito borboleta’ em si surgiu provavelmente do artigo ‘Predictability: Does the flap of a butterfly’s wings in Brazil set off a tornado in Texas?” (Previsibilidade: Poderia o bater de asas de uma borboleta no Brasil causar um tornado no Texas?), resultado de uma pesquisa que Edward Lorenz desenvolveu. No laboratório em que trabalhava, ele tinha um novo computador eletrônico que simulava condições atmosféricas. Não vou entrar em detalhes, mas o importante é dizer que ele identificou que ao inserir pela segunda vez os dados originais de uma simulação das condições climáticas, ocorria uma pequena variação do primeiro para o segundo gráfico impresso.

Considerando que os dados inseridos eram os mesmos na primeira e na segunda inserção, os gráficos deveriam ser idênticos, o que não ocorria. Ao longo das repetições, ele notou que as variações iam aumentando até que toda a semelhança com a forma original do gráfico desaparecesse. Isso nos permite crer que pequenas mudanças podem ter efeitos catastróficos ao longo do tempo e do espaço.

Por fim, gostaria de exemplificar a aplicação do conceito da ‘teia complexa’ a uma situação socialmente representativa, descrita no livro Freakonomics, de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner.

Os autores descrevem os fatores porque houve a redução de crimes em determinado estado dos Estados Unidos. Aparentemente, isso havia ocorrido pelo aumento de efetivo policial, mas, por fim, revela-se que a redução de crimes havia ocorrido mais significativamente por uma causa legal ganha em outro estado, por uma mulher pobre, que pedia o direito de abortar para aquelas que engravidassem e não tivessem condições financeiras para criar, alimentar e sustentar os filhos. Causa ganha, o número de delinqüentes, supostamente filhos destas mulheres pobres, caiu, e com ele o índice de crimes.

Isso mostra que existem inúmeras causas para um mesmo efeito e vice-versa (uma causa para inúmeros efeitos). Há uma complexidade de eventos simultâneos e subseqüentes que influenciam direta ou indiretamente, em maior ou menor grau, eventos outros, de proporções similares, maiores ou menores.

A partir destes esclarecimentos, convido-os a pensarem a sustentabilidade como algo complexo que está e continuará exigindo um esforço de mudança e transformação além do que temos feito hoje, ao executar ações fragmentadas, embora repletas de boa intenção e coerentes à manutenção dos negócios e do conforto que o sistema atual parece proporcionar.

3 comentários:

  1. PARABÉNS, ESTOU FAZENDO UM TRABALHO E SEUAS DEFINIÇÕES ME SERÃO MUITO ÚTEIS.

    oBRIGADO.

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  2. Foi muito util, me ajudou muito.
    parabens..
    sempre post coisas interessantes assim. ;)

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